> Elisa entre gotas de poesia: Agosto 2017

O anel



Uma vez, quando eu era criança, a minha avó materna chegou com três anéis. Um tinha uma pedrinha quartzo rosa, o outro tinha uma pedrinha jade/esmeralda verde e o outro uma pedrinha topázio azul. Ela mostrou os três delicados e pequenos anéis banhados a ouro às suas três espevitadas netas, incluindo eu e disse bem assim:
-- Que cor vocês querem meninas?
Advinha só? As três netas com pouca diferença de idade escolheram o anel rosa. E agora vó?
-- Eu quero o rosa, vó!
-- Eu também quero o rosa, vó, esse anel combina mais comigo!
-- Vó, se tu não me der o rosa, eu vou chorar, vou contar pra minha mãe...
E sem saber o que fazer com as três netas impertinentes preferindo o anel de pedrinha quartzo rosa, a minha avó tomou uma decisão muito simples e sábia:
-- Então, vamos fazer um sorteio gurias...
Cada caixinha preta que continha o anel tão desejado estava fechada e assim não poderíamos saber qual a cor do anel que o destino nos reservaria. 
Minha prima do meio tirou o anel de pedrinha azul.
Minha prima mais nova tirou o anel de pedrinha rosa.
E eu tirei o anel de pedrinha verde.

Estrelas também sabem nadar




Poesia publicada na Antologia Escritos de um Verão pela Editora Illuminare (2017)


Foi naquele verão
Que eu escutei
Aquela canção
Um som de um violão
E o mar beijando
A areia vagamente
Com muita calma
Com inspiração!
Os garotos estavam
Como loucos
Procurando sereias na praia
Água de coco?
Pegadas de chinelo
Pegadas de sandália!
Meninas de maiô, biquíni e minissaia,
O vento tocando a lua
E o luau acontecendo
Na beira de praia!
Saudades...
Novas e antigas amizades
Um colorido de um verão qualquer
Alguém sozinho
Pensando na vida
Perdido na maré alta
Tomando um sorvete
Comendo um picolé!
Olha o sonho!
Grita o confeiteiro
Lá da outra esquina
Pão caseiro?


Mesa de bar





Uma noite fria
Chuvosa
Escura
Nua sem estrelas
Um lugar de pouca gente
De insanos, malucos e crentes
Um bar
À meia luz
Ele olha para ela
E a seduz
Com dois goles de uísque
Ela ri duas vezes
Antes que ele pisque
Não fala nada
E acha que ele
Tem um ar debochado
Só faz piada
Ele ascende um cigarro
E ela
Até finge que olha para o lado
Ele precisa beber algo...
Álcool?
Para esquecer seu matrimônio
Ela já nem sabia
O que procurava
De seu sonho
Tinha esquecido
Mal lembrava...

A filosofia dos sentidos




Hoje, dia 05 de Agosto de 2017, eu aprendi uma filosofia de vida...
Um rapaz com câncer dizia para um senhor com Alzheimer:
-- Deus te deu dois ouvidos, dois olhos e uma boca, então escute mais, observe mais e fale menos. Ele dizia isso para o "vovô", pois o mesmo não parava de falar alto, gritando e reclamando de sua situação, pois além da demência muito avançada, aquele senhor estava com alguma outra complicação cujo eu não consegui identificar a causa.
Nossa eu achei isso tão esplêndido! Ouvidos, olhos e boca...Uma metáfora, uma comparação.
Eu estava na emergência da Santa Casa esperando para ser atendida, devido a uma infecção urinária, passei a madrugada toda ouvindo o rapaz com câncer conversando com esse senhor. 
Literalmente incrível!
Eu não dormi, pois fiquei conversando com a minha mãe.
E o rapaz com câncer no outro dia, todo empolgado, veio e me disse assim:
-- Ah guria, agora tu estás com sono né? Não dormiu de noite né? -- E ele sorriu para mim.
Eu sorri para ele e não disse nada, porque realmente eu estava anestesiada de sono.
Novamente, ele passa por mim, eletricamente, e disse:
-- Força e fé, vamos tomar um café?