> Elisa entre gotas de poesia: Disney Desencantada

Disney Desencantada

Invadir o castelo foi fácil, difícil foi resistir a tantas maquiagens e chapéus de grife.
Exatamente isso. Essa história se passa em um lugar onde tudo era do avesso. A lua se via de dia e o sol se via à noite. Na madrugada, o céu era azul e na aurora, o amanhecer era escuro. Ao invés da chuva, as estrelas caíam do universo, como gotas cristalinas. As árvores eram plantadas de cabeça pra baixo, e de suas flores saíam frutos deliciosos, mas não podiam cair no chão, senão viravam sementes. Os rios e as cachoeiras eram salgados e os mares eram feitos de uma água bem docinha. Era um lugar desencantado, em que o faz de conta não morava num reino tão, tão distante, pois tudo se localizava bem pertinho. As princesas eram más, feias, chatas, desarrumadas, enquanto as bruxas eram boas, elegantes, rainhas enfeitadas. A Branca de Neve, por exemplo, havia tentado envenenar a bruxa que não era má, para se tornar a rainha mais bela de todas. A Bela Adormecida inventou um sonífero, pó do sono, e colocou no chá da Malévola. Seu efeito a fazia dormir durante o dia, e acordar durante a noite. A Cinderela pegara emprestado o sapatinho de cristal de sua madrasta para tentar chamar a atenção do príncipe, que dançaria com ela durante o baile todo.


            Os sete anões eram gigantes enormes que viviam no meio da floresta. O lobo mau era tão bonzinho que tinha preparado uma festa de aniversário para a Chapeuzinho Vermelho. Esta era uma menina rebelde e enjoadinha, um tanto hiperativa, que não deixava a vovozinha em paz. Comia todos os bolinhos de cereja, por isso era meio cheinha. A Rapunzel usava peruca, os três porquinhos eram ricos e moravam em palácios enormes e lá no alto do pé de feijão, morava um anão muito simpático. João e Maria faziam dieta. Pinóquio jamais dissera uma única mentira e o gato de botas, não era um espadachim, e nem falava espanhol. Era um fofo gatinho de estimação que amava dormir no sol e comer quindim no café da manhã.
            As princesas queriam invadir o castelo das bruxas. Enquanto elas viviam isoladas nas cavernas sem luxo e sem mordomia, as feiticeiras eram felizes para sempre. Usavam vestidos bordados, seus cabelos eram lisos, louros, ruivos, escovados e seus sapatos finos, dourados. Todas eram vizinhas e apaixonadas por seus ricos maridos. Fofocavam sem parar através de suas varinhas mágicas que serviam de telefone. Adoravam dançar e desfilar suas vestes de cetim, seda e veludo nos bailes da realeza. Ao mesmo tempo em que as bruxinhas andavam de carruagem, as princesinhas voavam de vassoura. Para elas, isso não era uma situação muito agradável, porque seus cabelos ficavam completamente arrepiados e despenteados.
            As vossas majestades que eram excluídas da sociedade, não suportavam sofrer bullyng medieval por apresentarem verrugas no rosto. Não aguentavam mais viver como camponesas de calos nas mãos e unhas quebradas. Sonhavam em ser lindas e fashion como as ogras que viviam no pântano perfumado. As fadas sem asas, mortais e humanas, não tinham seus encantos para ajudar as donzelas sem beleza, por isso faziam consultoria de moda e psicologia para aconselhar as garotas ranhetas sem charme.
            Alice não vivia mais no país das maravilhas, tinha que lavar as meias sujas e abotoar as camisas do Chapeleiro São. E a cabeça perfeita da Valete de Copas a irritava. O canto lírico da Bruxa Úrsula chateava Ariel, a pequena sereia, que perdera sua calda de peixe de tanto se bronzear deitada na areia, até sua pele ressecar e virar um pimentão. Enquanto a princesa Jasmine vendia e limpava tapetes não voadores, no meio do deserto escaldante, Bela se desquitou da Fera. Engordou, encontrou um emprego de jardineira e passava o dia inteiro, cortando os espinhos das roseiras. Tiana virou confeiteira e cozinhava as guloseimas para a Casa de Doces. Já, Merida fugiu com um circo e tornou-se domadora de ursos selvagens. Mulan ganhava a vida como florista, distribuindo flores das cerejeiras. Pocahontas sobrevivia fazendo artesanatos. Branca de Neve era garçonete, servia suco, torta e lanches variados de maçã para os meninos perdidos e inclusive, para o Peter Pan, já muito crescido, antigamente seu fã. Aurora, uma costureira muito prendada, consertava em sua roca de fiar, os vestidos e as roupas da bruxarada. Rapunzel e Cachinhos Dourados abriram um salão de feiura e forjavam penteados, cremes e tinturas.
            Todas as princesas já estavam muito cansadas de serem empregadas das bruxinhas “dondocas”. Cinderela, a mais nova diarista do reino desencantado, nunca mais frequentara uma balada até a meia noite. As damas descoroadas, sonhavam em reviver seus românticos e belos contos de fadas. Elas não queriam ser “infelizes” e encalhadas pra sempre. Para isso, elas deveriam resgatar seus dons perdidos, capturados pelo poder do espelho mágico. Apenas assim, reconquistariam suas dádivas do canto, da beleza, da fortuna, da nobreza, da dança, da sedução. Não aguentavam mais viverem sozinhas e abandonadas com fama de sujas, feias, malvadas, malvestidas, fora de moda. Desejavam ser paparicadas, amadas, assim como desfrutar das festas do mais alto requinte da sociedade castelense. Cobiçavam o calor de uma cama quentinha no inverno gelado. Lembravam-se das faíscas de fogo que saíam da lareira, enquanto degustavam mingau com aveia. Suspiravam por uma banheira de água morna com fragrância de rosas. Imaginavam seus queridos príncipes montados em corcéis dourados.
            Mas nada disso seria possível. Até porque, o Gênio da lâmpada maravilhosa apaixonara-se por uma odalisca vidente. Para casar-se com ela e juntar-se à convenção das feiticeiras, ele abandonou os seus poderes e os transferiu para Aladdin. Este ficou tão entusiasmado, que com apenas três desejos, conseguiu um ar condicionado, um tapete voador já quase extinto e mil e uma noites de amor com uma dançarina que balançava seu ventre e escondia seu rosto por detrás de um véu lilás. Para recuperarem sua graça e  formosura, as princesas planejavam quebrar o místico espelho. Era a única solução para trazer de volta a paixão dos galãs encantados. Fazia muito tempo, que elas não sabiam o que era sentir um beijo apaixonado.
            Para isso, elas deveriam invadir o castelo das belas rainhas magas. Por isso, fizeram um pacto com as fadas Sininho, Flora, Fauna e Primavera, que sentiam ciúmes de uma simples borboleta voando no céu. Com uma mistura de rabo de lagarto, beijo de um sapo e três potes de mel dos três ursos, elas fariam uma poção mágica para transformar as profetizas em estátuas de sal e açúcar. Com isso, elas perderiam a sua beleza, tornar-se-iam velhas e obesas, e permaneceriam estagnadas eternamente admirando a volta do reinado das princesas. Todavia, as “feias borralheiras” não esperavam a surpresa do espelho que tudo vê.
            Aurora – a Feia Adormecida – entrou primeiro devagarzinho às escondidas para borrifar no ar seu perfume de essência de papoula. Enquanto isto, as demais chegaram voando de vassoura. Traziam consigo o feitiço dentro de um frasco, escondido no bolso do vestido. Suas saias eram retalhadas, assim como as suas risadas, estrondosas, que cortavam o silêncio da noite. O plano constava primeiramente, em deixar todas as bruxinhas sonolentas, dormentes. Depois, delas caírem no abismo de um sono profundo, Branca de Neve deixaria para o café da manhã, um delicioso chá de maçã com gotas de mel e hortelã mesclados à substância vilã. Dessa forma, as madrastas mais boazinhas de todos os tempos desapareceriam com a brisa do vento. Ninguém se lembraria da Rainha Boa, nem da Benévola, nem da Yzma, nem da Bomzela De Vil, nem das amadas e queridas tias Sponge e Spiker. Até as bruxas de Morva – Orddu, Orwen e Orgoch – do Caldeirão Mágico, seriam esquecidas. Úrsula e a Rainha de Copas, juntamente com a aristocrática Madame Medusa e  a bruxa do mar Morgana, teriam um triste fim como enfeites de jardim.
            Mas o poderoso espelho mágico que tudo enxerga, que tudo vê descobriu o plano vingativo das mocinhas enfeiadas, e solicitou que todas as bruxas se reunissem no grande salão das magas. Lá, havia um enorme caldeirão escondido, que apenas deveria ser usado em situação de perigo. E seguindo a voz por detrás do vidro, elas realizaram uma feitiçaria que aconteceria quando o relógio tocasse três badaladas à meia noite. Ao amanhecerem, devido ao tempo que permaneceram desmaiadas, as videntes e benzedeiras acordaram completamente esfomeadas. Tomaram muito chá e comeram bolos, biscoitos e torradas feitos pelo padeiro. De repente, ao sinal do primeiro arroto sabor maçã, as bruxas começaram a se transformar em estátuas petrificadas. Ao mesmo passo, em que isso acontecia, todas as princesas recuperavam sua juventude, charme e beleza. Elas riam soltas e dançavam de tanta felicidade. Para comemorarem a vossa vitória, enviaram convites para os príncipes de todas as cidades vizinhas e muitos vieram cortejar as suas formosas duquesas e rainhas.
            No baile, Aurora estava tão irradiante que seu vestido mudava de cor constantemente através do brilho das luzes fosforescentes. Uma hora era rosa, outrora azul. O príncipe Felipe, sempre bem humorado, a admirava dançando ao seu lado. Cinderela exibia na passarela do tapete vermelho, seus sapatinhos de cristal. Abandonara seu sujo avental por uma delicada veste de cetim perolada. Um príncipe desconhecido de muito bom gosto, bonito e de ótima posição social a fitava com um olhar encantador. Aladdin apaixonara-se por Jasmine, ao vê-la sem véu, fazendo a dança do ventre, com curvas delineadas. Rapunzel descia as escadas com suas tranças louras e compridas, muito lindas e hidratadas. Flynn Ryder, um príncipe extrovertido e sedutor, possivelmente, nesta noite, lhe concederia um beijo de amor. Ariel cantava com sua voz tão suave e delicada ao centro do salão, conseguindo chamar a atenção do lindo e atraente príncipe Eric que a convidara para dançar valsa. Branca de Neve se parecia com a Kristen Stewart e estava impecavelmente bem vestida. Seus lábios rubros e seus cabelos negros se contrastavam com sua pele hidratada que brilhava feito um diamante. Um príncipe rico, elegante, cheio de romance, e muito pontual a pedira em casamento. E a Fera, nunca antes havia visto a princesa Bela tão perfumada, arrumada e maquiada. Ficara tão apaixonado, que a intimou a viver novamente em seu castelo.
            E tudo novamente, parecia lindo, romântico e perfeito. O reino voltou a ser encantado e distante. Os anões voltaram a ser gigantes, e os gigantes voltaram a ser anões. Pinóquio mentiu tanto, que seu nariz fez uma volta ao mundo. O grilo mudo voltou a ser falante. João e Maria acharam o caminho de volta pra casa. O Lobo Mal voltou a perseguir a Chapeuzinho Vermelho e queria muito jantar os três porquinhos. O Gato de Botas emagreceu, tornou-se um mosquiteiro e vivia atrás de ouro e dinheiro.
         E as bruxas continuavam petrificadas por todos os cantos do castelo. Ninguém sentira a vossa ausência. Devido à quebra do desencanto, o espelho se encontrara rachado, esquecido no chão. Mas quando o relógio bateu meia noite...
            Na terceira badalada, as bruxas começaram a soltar suas risadas. E, as princesas? Elas perderiam seu encanto e sua beleza e tornariam a envelhecer muito lentamente. Seriam transformadas em estátuas de sal e açúcar! E quando o sol atravessasse as cortinas que cobriam as janelas, elas derreteriam e virariam pó de confeiteiro. Enquanto isso, as bruxas desfilavam esplêndidas e radiantes para o baile. Eis que surge uma voz ecoante e explica a todos à razão daquele feitiço. Era o poderoso Espelho, Espelho Meu, brilhante e reluzente, porém quebrado. Através de seu reflexo, ele mostra a história que mudara a vida dos seres encantados.
         As princesas achavam que as bruxas tinham roubado a sua beleza, mas não era bem isso que tinha acontecido. Por muito tempo, as bruxas viviam sozinhas e isoladas, malvistas, excluídas dos festejos dos contos de fadas. Enquanto isso, as princesas viviam felizes para sempre. No entanto, na medida em que as bruxinhas se arrependiam de suas maldades, as princesinhas aumentavam suas vaidades e tornavam-se fúteis e mesquinhas. Entristecidas e muito decadentes, as bruxas envelheciam rapidamente e com isso perdiam seus dentes e seus sorrisos. O espelho mágico com todo seu poder observara a tristeza das bruxas, resultado da futilidade de todas as princesas do reino. Resolvera inverter a magia das coisas. E assim, manteve-se por um longo período de cabeça pra baixo, oportunizando dias de divas para tantas bruxas que não conheciam o amor, nem o sabor da felicidade.
          Como ele resolvera permanecer de ponta cabeça, todos os seres da floresta que viviam chateados foram contemplados. O gigante do pé de feijão sonhava em ser anão, já estava ficando muito sozinho e deprimido. Não tinha nenhum amigo. João sempre corria quando o via. Todavia, com um anão ninguém se espanta, e assim, ele não morreria ao tentar escorregar pela planta!E o Lobo Mau? Sempre observava a vovozinha e a Chapeuzinho comendo doces e bolinhos em seu chalé. E nunca o convidaram para tomar uma xícara de café! Ele passava frio e fome, e ainda vivia ameaçado de extinção por aquele homem caçador!
         E tudo isso acontecia, durante a balada chique das princesas egoístas, que não enxergavam nada ao seu redor, além de si mesmas. Deixaram-se engrandecer pelo encanto da beleza eterna e pelas festas da realeza. Quem era feio e diferente não ganhava convite para entrar no baile. O patinho feio teve que virar um lindo cisne branco para ser aceito e bem tratado. O corcunda de Notre Dame, o Quasímodo, precisou entrar disfarçado para não ser reconhecido. Cinderela ignorava e fazia cara de nojo para suas irmãs postiças, Anastasia e Drisella. Tiana não queria saber de beijar nenhum sapo. Ela apenas flertava com jovens rapazes muito atraentes. Branca de Neve, propositalmente, esquecera-se de convidar a sua madrasta, com medo de que ela fosse escolhida como a mais bela da noite.    
         Para o espelho, princesas e bruxas deveriam aprender a viver em comunidade. Não deveriam se enfrentar o tempo todo para decidir qual delas seria a mais bela de todas. Além disso, muitas bruxas nem eram tão más assim e outras princesas nem tão perfeitas. Por isso, o espelho mágico inverteu os lados, e começou a olhar tudo de ponta cabeça. Talvez, apenas assim, os seres da floresta encantada e dos grandes castelos sentissem e valorizassem a história de cada personagem.
      E o dia estava raiando, os passarinhos cantando e o galo ficando rouco de tanto cacarejar. Em seu último grito, as princesas se transformariam em pó de cereja e o reino seria desencantado para sempre. Contudo, ao sentirem-se arrependidas, percebendo que as bruxas não tinham culpa de nada, as meninas emocionadas, lacrimejavam pingos de amor verdadeiro. Elas já estavam mais envelhecidas que a vovozinha que parecia uma jovem rapariga. As lágrimas derramadas caíram sobre as fadas madrinhas, que recuperaram suas asas e suas varinhas de condão. Num “tintiririndindom” o espelho foi consertado, antes do último cantarolar do galo. As princesas retomaram suas verdadeiras aparências. Reencontraram seus amores. E aprenderam que não existe final feliz sem uma pitada de diversidade.  As feiticeiras continuaram belas, cheias de magia, loucas de saudade de seus maridos. E o reino reconquistou o seu equilíbrio, nem tão perto, nem tão distante.  E antes que a festa terminasse, Dorothy Gale seguiu pela estrada de tijolos amarelos até encontrar aos jardins do castelo. Chegando lá, ela bateu três vezes os seus sapatinhos vermelhos e através de um imenso ciclone, retornou para sua casinha no Kansas e acordou. Olhou-se no espelho e percebeu uma leve rachadura.


"Este texto foi escrito inspirado na Oficina de Escrita Criativa com ênfase em Criação Literária (2015), mediada pelo professor, escritor, jornalista, doutor em letras, Marcelo Spalding. Para quem deseja  conhecer a oficina online: :http://www.escritacriativa.com.br/"

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