> Elisa entre gotas de poesia: O vampirinho que tinha medo de tudo

O vampirinho que tinha medo de tudo









Era uma vez...
    Um vampiro que tinha medo de tudo. Meio morcego, meio menino, ele ficava assustado com qualquer barulho ou rugido estranho. Os passarinhos não podiam nem cantar, nem os esquilos catar nozes para a geada do inverno. Qualquer barulhinho poderia assustar aquele vampirinho de terno roxo. Ele tinha medo do escuro, de fantasmas, dos quadros pendurados na parede que pareciam mexer os olhinhos pra lá e pra cá. O vampirinho tinha medo até de espirrar, porque o castelo era gigantesco, e qualquer ruído poderia ecoar e acordar a múmia que dormia silenciosamente em sua tumba. O vampirinho estremecia, rangia seus caninos até quando o sino do relógio marcava meia-noite fazendo ding-dong. Ele se escondia embaixo dos lençóis de sua cama-caixão quando ouvia os gritos do King Kong, ou quando via a sombra do Bicho Papão passar pelo seu quarto. Qualquer assovio era motivo de arrepio!


    O vampirinho morava em um castelo mal assombrado. Esse lugar era sujo, empoeirado,  mal iluminado, cheio de teias de aranha espalhadas por todos os lados. Morceguinhos dormiam empilhados de cabeça pra baixo, um vigiando o outro. Os ratinhos cruzavam os degraus das escadas em busca de farelos. E lá do sótão se ouvia pegadas e batidas de martelo. No porão era uma confusão! Gargalhadas de bruxas e uivos de lobisomem. Puxa! Assim o vampirinho não conseguia nem  dormir. Quando ele tentava adormecer, um mordomo ruivo todo de preto, sem dente, meio esquisito resolvia aparecer e atender a campainha que fazia blin-blong repetidas vezes, todos os dias. Eram mais hóspedes, muitos fregueses que fugiam da forte tempestade e procuravam um alojamento. O vampirinho tinha pavor até do ruído do vento! Ele ficava todo arrepiado até quando uma coruja ou um corvo pousavam ao seu lado. Seus olhos vermelhinhos pareciam estar desconfiados de tudo e de todos.
    Também, o vampirinho era rodeado de puro terror! Em volta do castelo as árvores secas pareciam falar na escuridão da noite. E as abóboras de sorriso laranja jogadas no chão? E as nuvens carregadas de chuva que cobriam o céu? O nevoeiro gelado e sombrio e a lua cheia? Tudo realmente era muito assustador! Parecia que o vampirinho estava num filme de horror. Ah! Um grito abafado se ouve de dentro da mansão trevosa. E o vampirinho de coração na mão quase sai voando batendo as suas asas aterrorizado... As luzes se ascendem, os candelabros ficam iluminados. Finalmente, ufa, é Halloween e o hotel dos monstros está completamente lotado! Estendem-se os tapetes vermelhos e o vampirinho pula de susto ao não perceber seu reflexo no espelho! Uma caveira toda magricela começa a estremecer seus ossos com sua boca tagarela:
    - Tudo é planejado durante o ano inteiro para atrair a clientela! O cenário deve sempre favorecer o medo, os gritos, os calafrios e aquele famoso friozinho na barriga. Todos os monstros incluindo a "mula sem cabeça"  devem frequentar a escola Cia do Pânico & Susto para poder assustar melhor cada cliente.Temos sensores em nosso castelo que captam a vibração de cada ranger de dente, de cada olho esbugalhado, de cada fio de cabelo arrepiado! Tudo isso para comemorar o maior e melhor feriado do ano, em que todos amam os monstros, se vestem como os monstros e querem ser como os monstros! - explicou a caveira recepcionista. 

    Ouvindo aquela falatória de uma história verdadeiramente horripilante, o  vampirinho ficou mais apavorado ainda, de dentes abertos com toda aquela encenação. Mas aos poucos aquela sensação foi passando, se transformando devagarinho, primeiro em alívio e depois em emoção. O vampirinho aprendeu que todo aquele terror fazia parte de sua vida, e que nem tudo parecia ser tão assustador assim... Afinal, ele também era um vampiro...Oops!

Nhac!



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