> Elisa entre gotas de poesia: Bipolar por coincidência

Bipolar por coincidência

   




     Ontem à noite, Márcia Aurélia teve um pesadelo, sonhou que estava sem cabelos e sem sobrancelhas. Acordou toda emburrada, com o "pé esquerdo", até se olhar no espelho e dar uma risada. Saiu saltitante da cama, escovou os dentes, tomou um delicioso café da manhã com frutas e café com leite! Ao ler o jornal, já se mostrou irritada com a página policial e começou a tagarelar na mesa sobre política. Sem querer, toda estabanada, deixa cair pingos de café em sua camisa favorita, cor-de-rosa, recém lavada! Quase começa a chorar,mas engole o choro ao ganhar um tênis novo de presente de sua mãe! Como era feriado, ela não tinha nem estágio, nem faculdade e resolveu ir correr no parque.


        Quando Marcinha saiu de casa, estava um dia maravilhoso, com muito sol e céu aberto. Quando ela chega no parque, começa a cair gotinhas de chuva sobre sua cabeça. Fica meio mal humorada, mas começa a correr, "talvez seja apenas uma nuvem"- pensa a jovem de vinte e poucos  anos. Cai um baita temporal de verão, e ela tenta se esconder embaixo de um Jambolão. Passa uma senhorinha de terno preto com um pequeno cão nas mãos e a oferece um guarda-chuva. Aurélia sorri, agradece, o sol reaparece, a suposta viúva desaparece e ela continua correndo. Por um momento, ela está feliz, até tropeçar e bater com o nariz no chão. Por sorte, não quebrou nenhum dente! Estava quase surtando, quando apareceu um rapaz todo forte, musculoso para lhe ajudar a se levantar. Márcia Aurélia ficou toda risonha e boba e o convidou para jantar. Os dois ficaram amigos de imediato, e continuaram correndo e conversando. Quando ela ia perguntar seu telefone, e até achava que poderia rolar um suposto beijo de amor, de repente chega outro homem, um senhor também loiro, forte e musculoso. Era o esposo do primeiro moço que lhe ajudara. Aurélia vê seu possível namorado indo embora, correndo todo apaixonado ao lado de seu príncipe encantado.
    Para ganhar um pouco de fôlego de tantos acontecimentos, ela senta por um momento num banco de praça. Volta aquela viúva com o poodle nas mãos e se apresenta, dizendo que seu nome é Graça. Agora, ela lhe oferece uma garrafinha de água sem gás. Com um leve movimento dos lábios, Lélia se mostra agradecida. Fica em paz, serena, de bem com a vida. Escuta o canto dos pássaros, sente o perfume das margaridas. Sonha, cochila rapidamente, e acorda com os gritos do vendedor de algodão doce. Olha para o lado, e não vê mais aquela afável senhora acompanhada de seu cachorro branco que usava sapatos de algodão. Levanta, respira e volta a correr, sem perceber que seus tênis estavam desamarrados! Leva outro tombo, tropeça, e dá de cara com seu ex-namorado, agora mais magro. Pensa: "até que ele está bonitinho". Toca o celular,é sua mãe lhe chamando para almoçar. O ex oferece uma carona, mas Márcia Aurélia se faz de difícil e diz que prefere ir de táxi. Ela joga um charminho e sai caminhando, olhando pra trás. Toda entusiasmada, se achando querida e desejada, se descuida e bate com a cabeça no poste de luz. Nasce um "galo", ela se machuca, grita assustada: "Jesus", e quase é atropelada atravessando a rua. Não acha mais o ex, fica desanimada, quando novamente avista a velha senhora escorada na parada de ônibus. Ela lhe oferece um chocolate. Márcia Aurélia, contente, mostra-se mais animada. Mas passa uma cachorrada, o poodle late, ela perde o táxi, e sem querer é ofendida de biscate, pisa num chiclete, é chamada de gostosa, suada, fedida, periguete e começa a entrar em prantos. 
    Passa um florista, lhe oferece uma rosa, a chama de bela e cheirosa, e ela fica feliz. Recebe um elogio, escuta um assobio, uma cantada. Um rapaz para de carro e dá uma buzinada. Era o ex-namorado que tinha deixado o seu carro estacionado no outro lado do parque. Aurélia se sente toda encantada e volta pra casa de carona, motorizada e apaixonada. Pensa que um beijo romântico vai rolar, mas o ex vai embora, dizendo que um dia pretende voltar. Entra arrasada em seu apartamento, quando sente um cheirinho de frango assado e bolo caseiro. Antes de almoçar, prefere tomar banho e canta feliz no chuveiro. Em frente à porta do banheiro, sua mãe pergunta: "Está tudo bem minha filha?". Ela responde: "Sim mãe, por coincidência, hoje estou bem humorada". De repente, grita: "merda". Acabou o gás e a água ficou fria, congelada e ela estava recém se ensaboando...



0 comentários:

Postar um comentário