> Elisa entre gotas de poesia: Abril 2015

Bodas de papel

"Este texto foi escrito inspirado na Oficina de Escrita Criativa com ênfase em Criação Literária (2015), mediada pelo professor, escritor, jornalista, doutor em letras, Marcelo Spalding. Para quem deseja  conhecer a oficina online: http://www.escritacriativa.com.br/"

    Foi durante uma noite quente de verão que aconteceu aquele estranho festejo de bodas de papel. Era Dezembro, e ninguém esperava um presente de papai Noel tão inusitado. Maria e João, dois jovens quase recém-casados resolveram fazer na véspera do feriado um jantar romântico para celebrar seus anos de casamento. Mas não eram anos, era apenas um ano, já que se tratava das bodas de papel. Sabe como é...  O papel representa a fragilidade, aquele choque de culturas, e também a ternura, a doçura, a flexibilidade, a coragem para enfrentar uma vida a dois. Enquanto Maria pensava na decoração da casa, nas flores e nas rendas, João, já havia ligado para uma porção de amigos. Enquanto Maria pensava no Buffet, João jogava Play Station quatro e assistia futebol na TV. Um parecia não se conectar com o outro, embora seus corações permanecessem ligados no tal “felizes para sempre”. Numa manhã de sol, João gritava:
- Maria, estou com dor de dente! Todavia, ela só pensava nos presentes!
- E daí? - respondia Maria. Para ela, o mais importante era se maquiar e se embelezar em frente a pia do banheiro!
    Mas justamente naquele dia, João se esquecera de sua tia Joaquina que chegaria de Londres para participar do jantar em família. Para Maria se tratava de um momento romântico entre os dois, com rosas vermelhas e um breu à luz de velas. Eles não moravam no bairro dos Jardins em São Paulo e sim na favela, no morro da Babilônia. Imagina se toda aquela vizinhança não iria correndo, ou melhor, comendo atrás da comilança! João sem pressa pegou sua bicicleta e se dirigiu até o aeroporto. Mas o vizinho ao lado, muito preocupado, lhe emprestou seu fusca todo enguiçado para não atrasar a festa! Enquanto isso, Maria ainda estava em seu toilet francês, em sua banheira de hidromassagem. No celular de João chega um SMS, uma mensagem:
- Guri, já estou aqui, peguei um táxi de cor caramelo, cujo motorista se parecia muito com o padre Marcelo! – dizia a tia de João! Já o rapaz todo apressado, largou o fusca enferrujado do vizinho e entrou na limousine do cunhado, que era um famoso cantor de funk, lá das bandas do Rio de Janeiro!
    Dim Dom... Enquanto a tia apertava a campainha, Maria estava trancada no banheiro! Caiu uma tempestade e o vento fez bater a porta! Maria pega seu smartphone e liga para Bruno e Marrone, avisando que o jantar iria atrasar, mas que o show tinha que continuar. E a tia? Esta não parava de berrar que a chuva estava estragando a sua escova progressiva! E na limousine do funkeiro, chegam as amigas e os amigos de João, que trazem um chaveiro para tentar salvar Maria de seu banheiro francês. Do nada a porta abre e Maria sai toda enfeitada feito uma princesa de contos de fadas! Seu vestido rendado foi inspirado na moda britânica. Em suas bodas de papel, Maria vestia e exibia uma moda Rapunzel, com suas tranças floridas, esticadas até o céu!
    Num Cadillac conversível Eldorado rosa, chegam os pais dos noivos. O pai de Maria era um velho coronel aposentado da marinha. O pai de João era um mafioso com pinta de Siciliano. Ele costumava usar um chapéu de mexicano com uma barba bem alinhada. A mãe de Maria sonhava em ser rainha, mas se contentou em ser miss Babilônia. Já, a mãe de João, nascida em Rondônia, era uma dona do lar, que sabia cozinhar muito bem e vendia doces e quentinhas para fora.
    E os convidados começam a entrar na casa... Mas onde está João? Novamente toca a campainha, dim dom, dim dom. O funkeiro liga o som e o garçom serve pinga, cerveja e cachaça para a comunidade. De repente, de chinelo Havaianas, entra João, com as alianças na mão, cantando “Ai que saudade d`ocê”. E começam a chover “pingos de amor”, que atraem até o trio Timbalada de Salvador que batucava ali perto naquela região! E para abençoar aquela doce e sincera união, chegam juntos num táxi amarelo, o padre Marcelo e o padre Fábio de Melo. Eles cantam e abençoam João e Maria, que um dia se conheceram numa estradinha de pedra, seguindo migalhas de pão! E para completar aquelas bodas de papel, o padeiro de bigode traz o bolo da noiva em formato de coração! E a turma do pagode mistura samba e funk com música erudita. Nunca se viu uma história tão esquisita como a de João e Maria Bonita! E em plena véspera de Natal, aquela festa parecia mesmo um baile de Carnaval! E Maria dançava com o seu véu de rendas até o chão, enquanto João olhava para a janela, admirando o crepúsculo, bebendo sua caipirinha, completamente bêbado, mas encantado, apaixonado por sua mais nova noivinha. 





Meu cadillac rosa conversível









E lá se vai a
Madame,
Toda estilosa
Comendo um
Sanduíche integral
Com salame italiano
Em seu Cadillac
Conversível cor-de-rosa !
Uma madame
Francesa, toda
Elegante,
Metida à burguesa,
Charmosa,
Fazendo cara de rica
De condessa 
Passeando pelas
Ruas e olhando
As vitrines de Paris
Comendo ricota fresca!

A vaca








A vaca amarela
Tropeçou na
Panela,
Sem querer
Beijou um sapo
E...
Virou Cinderela!

Bossa nova de um poeta esquecido







Eu não sei o que sou,
Eu não sei o que faço!
Sou um poeta errante
Quebrado em mil pedaços!
Sou a rua, a avenida,
A embriaguez perdida,
Sou o tapa no chão
E o fio do cordão!
Sou um músico, sou
O samba, sou
O frio no verão!

A secretária









A secretária atende o telefone
E diz:
Pronto, alô!
Sim chefe, estou
Indo, já vou!
O chefe não para
De falar e a
Secretária?
Atende o celular!
Plim, plim, plim
Toca o telefone
Na outra sala
A secretária
Diz seu nome
E sai
Correndo com
Um sanduíche
Na mão!
Espera um instantinho
Diz ela, vou
Abaixar o som
Da televisão!

O voo da borboleta






Um dia eu nasci e vi,
Vi uma borboleta
Pousando no meu jardim!
Ela voava livremente
Entre os galhos das plantas
Flores e sementes
Voava num céu aberto
Entre gerânios
E girassóis perfumados!
Para aquela borboleta
Aquele jardim era
Como um lugar
Encantado!

E foi num bater de asas
Que a borboleta voou
E sumiu e foi
Num outro dia
Que ela voltou
E partiu!
Ela batia delicadamente
As suas asas coloridas
E beijava sutilmente
As brancas margaridas!

Il lavoro di segretaria






Buongiorno Marcia
Come va?
Oggi, ho trovato un lavoro che stavo cercando già da tempo!
Si tratta di una segretaria!
Mi piace molto!
Non è un lavoro molto faticoso!
Ho solo bisogno di rispondere al telefono e saper utilizzare il computer!
Ma, c´e una difficoltà!
Questo lavoro non è molto vicino a casa mia!
La remunerazione è più o meno e ho ancora bisogno di imparare a parlare inglese!
Perché alcuni clienti provengono da altri paesi!
Ma penso io che La cosa importante è fare  quello che si ama!
Non è un lavoro temporaneo!
Pare che in un anno sarò promossa!
Sono felice!
Ci vediamo questo fine settimana!
Baci



O rap do milionário






Assim a gente sai,
Assim a gente passa
E o milionário?
O milionário perde a graça!

E esse povo?
Esse povo brasileiro?
Um povo com raça,
Um povo guerreiro
Que luta e labuta
E não perde sua canção
Um povo trabalhador
Contra corrupção!

O dinheiro pode até
Te ajudar, mas quando é
Demais pode até te
Atrapalhar!
Por aí...
Tem muito pobre feliz
E muito rico deprimido
Anda de iate, desfila de Ray-ban
E dentro de sua bolsa?
Vive de lexotan!

Assim a gente sai,
Assim a gente passa
E o milionário?
O milionário perde a graça!

Esse mundo que
Vivemos, hoje
É um mundo consumista
Até parece que
Ninguém é feliz
E não sabe dançar
Na pista sem um dólar
Na mão!
Enquanto o rico anda
De limousine
O pobre meu,
O pobre bate o pé
No chão!

Assim a gente sai,
Assim a gente passa
E o milionário?
O milionário perde a graça!

O pobre que é
Pobre sempre vai
Batalhar, enquanto
O rico que é rico
Se contenta, comendo caviar!
Para o pobre, não tem
Fiasco,
Ele ama um pagode,
E gosta de comer churrasco!
Enquanto o rico
Só pensa em dinheiro
O pobre é feliz
Cantando no chuveiro!

E assim o povo vai,
E assim o povo passa
E o milionário?
O milionário perde a graça!

Afinal a verdadeira
Felicidade está nos
Nossos sonhos, na
Nossa liberdade!
Na liberdade de um povo
Que sabe o que quer,
Um povo brasileiro,
Guerreiro que tem fé!




O sapo sapecão







O sapo José
Não larga do meu pé!
O sapo Juruna
É apaixonado pela
Rã Bruna!
O sapo Crispim
Come mosca e
Tira um cochilo
No jardim!
Já o sapo João
Pula, pula, pula
Pelo chão!
E cadê o sapo
Sapecão?
Que faz tempo
Que não toma
Banho e precisa
de um sabão!

A zebra famosa








A zebra vem vindo
Toda listrada,
Essa zebra tem estilo
É elegante, arrumada!
Ela vem com o
Seu terninho
Branco e preto
Mas ninguém fala nada!
A zebra toda
Badalada, quer fofoca
Quer ser falada,
Ela gosta da fama
E dos holofotes
Quer ter seu brilho
Achar seu horizonte,
Seu norte!

E lá vai a zebra
Com o seu passaporte
Andar de carro,
Não, carro não!
A zebra chiquérrima
Só anda de limousine,
Helicóptero ou avião!

A menina que sonhava em ser bailarina







Era uma vez...
Uma menina que sonhava em ser bailarina!
   Desde criança ela dançava, e dançava na frente do espelho com roupas coloridas. A menina era muito extrovertida e não tinha medo nem vergonha de sair dançando por aí. Ela gostava muito de imitar as coreografias que apareciam na televisão. A menina dançava de tudo um pouco: samba, axé, hip hop e até dança de salão! Sim, ela dançava junto com suas bonecas! Seu quarto era uma festa, uma discoteca! Ela ligava o rádio pela manhã e ficava lá, rodopiando até ao meio dia. Depois ela almoçava, dormia um pouquinho, sonhava que estava dançando e já acordava cantando! Lá da minha janela do quinto andar, eu nunca tinha visto antes, uma menina que amava tanto dançar! Ela era apaixonada pela música, pela arte, pela dança! Uma criança alegre e dançarina! Qualquer ruído era um motivo de remelexo do corpo! Ela rodopiava e girava, saltava e cantava!