> Elisa entre gotas de poesia: Março 2014

Joga Fora!

O que você jogaria fora se não fosse usar mais?
Comida, bebida, barriga, lombriga, formigas no chão?
Tapetes, verbetes, trombete sem som?
Jogaria fora suas roupas?
Suas ideias insensatas, loucas?
Jogaria fora um beijo na boca?
Uma saudade, uma despedida?
O que não cabe mais na sua vida?
Sapatos, garrafas, latas, traças no armário?
Você jogaria fora todo o abecedário e aprenderia uma nova língua?
Ou compraria um dicionário e jogaria fora velhas palavras?
Palavras cantadas, usadas, rimadas, faladas, trocadas...
Jogo fora tudo o que eu aprendi,
Até o dia em que nasci,
Jogo fora o mundo, jogo fora a vida,
Jogo fora papéis, sentimentos e lápis coloridos,
Jogo fora o amor do cupido,
A briga com o marido e um
Conto de fadas nunca vivido!
Jogo fora a paixão, a morte, jogo fora
O esporte, essa mania doida de querer
Sempre emagrecer!
Jogo fora a beleza, o dia, a noite,
A religião,
Jogo fora as minhas ideologias,
Jogo fora a minha opinião!
Jogo fora as meias, os tênis, o sabão,
Jogo fora o supérfluo, o inverso, o inverno,
O verão!
Nossa, quantas coisas a se jogar fora...
Jogo fora a verdade, a idade,  a soneca,
A viagem!
Jogo fora o voo, a partida e a chegada,
Jogo fora aquela antiga namorada!
Jogo fora os livros, os cadernos, os brincos
E um corte de cabelo,
Jogo fora o novelo, o brinquedo e o
Cachimbo, joga fora o jornal, a revista
E o bingo!
Jogo fora também as canetas, as metas e os
Desvaneio, jogo fora o luxo e o reflexo
Do espelho!
Jogo fora uma mentalidade esquecida,
Jogo fora as margaridas secas na janela,
O sonho de ser Cinderela e quem sabe uma
Miss Brasil!
Jogo fora meus guardanapos, meus trapos,
Meu barril de invenções,
Jogo fora tudo, jogo fora nada,
Jogo fora o agora, o ontem e o
Amanhã!
Jogo fora a casca da banana,
A casca da maçã.
Meus gestos incompreendidos,
Jogo fora tudo que já passou
Para ousar novas vivências e flutuar
Sobre outras perspectivas!
Quem nunca jogou nada fora,
Vive de entulhos e amontados
Perdidos!
É comum, é legal jogar coisas fora por aí...
Até o corpo humano joga fora o
Cocô e o xixi!
Precisamos nos renovar e respirar novos
Ares,
Descer outras alamedas,
Jogar fora nossos nomes e
Incertezas!
Joga-se fora tudo o que não lhe cabe mais!
Troque de rumo, troque de arte,
Jogue fora até o seu telefone, o
Seu endereço, jogue fora
Quem você é!
Jogue fora a culpa, o pecado,
Jogue fora o chicle!
Só não jogue fora a mudança,
Porque é graças a ela, que você
Todos os dias, joga alguma coisa
Fora!

Como é bom ser mulher







Como é bom ser mulher
Guerreira, faceira,feiticeira, pioneira, cheia de graça,
Cozinheira, médica, parteira,
Coveira, mulher de raça, de massa,
Mulher do povo, do velho, do novo,
Mulher contemporânea, que faz tudo,
Que cuida do marido, dos filhos, do emprego e
Do mundo!
Mulher que estuda, que não se cala,
Que fala, não fica muda,
Ela tem opinião!
Mulher de gueto, de rua, fanqueira,
Que rebola, que samba,
Que arrasa um quarteirão!

E o velho brigadeiro de panela continua o mesmo





Certo dia, eu abria a janela e a minha mãe gritava:
- Olha o brigadeiro de panela!
Como era bom, eu lambuzava os beiços e comia cada raspinha...
Mas daí, veio a tal da tecnologia e trouxe o microondas, o tablet, o computador, e tudo de repente se modernizou. Ou melhorou? 
Na minha infância tinha o vídeo cassete. Depois vieram o discman e o disquete, mas esses dois ficaram lá pra trás com a chegada da famosa pen drive! Agora tudo é assim, geração 3D. Antigamente, não tinha nada pra comer..., hoje, em apenas um click, eu peço uma pizza online. E essa tal de tecnologia muda tudo, muda até os sonhos de um adolescente! Se nos anos 80 e 90 eu sonhava em ter um telefone sem fio, hoje é tudo virtual, até o teclado está fora de moda. Sim, teclar com os dedinhos já era, esquece...E eu..., que reclamava que os meus pais não eram digitais...Socorro!!! Por favor, alguém aí me empresta um mouse? 
E o velho brigadeiro de panela era tão bom e continua o mesmo! Têm coisas que a modernidade não muda. As mulheres continuam andando de vestido e os homens de bermuda! Mas, há controvérsias! E a pipoca? E o bolo assado no forno? Ainda carregam aquele gosto e sabor de um Domingo à tarde. Mas, você, que tem uns 30 anos, ou já é "trentanni" como diz a romântica língua italiana, sabe o que significa um carrinho de lomba, brincar na rua, rebobinar e assoprar fitas de videogame. Nessa época, nem imaginávamos que um dia chegaria esse tempo em 3D, 3G, 4G, pois a gente só pensava em brincar, dormir, comer e ver TV. É claro, comer o delicioso e velho brigadeiro de panela. Hoje, vivemos na era da comida industrial, dos congelados e dos famosos Fast Foods! Engraçado... Eu ainda me lembro que eu ficava em casa, na cozinha, girando a panela da pipoca...Hoje, todos os dias eu acordo, quando o despertador do meu celular toca, e como toca! Parece que é pra me avisar que eu vivo na Contemporaneidade, que eu sou um ser contemporâneo.

Marchinha de Carnaval






Hoje tem Carnaval sim senhor,
Tem lá na Bahia, chama o pai, chama a tia
Meu bem, chama toda a família!
Vamos comemorar, dançar e fazer festa,
Carnaval é só curtição, pegação, tem paixão de verão,
Vem cair na folia, veste a sua fantasia,
Ao abrir a janela, eu quase morri de rir
Com a coreografia da vizinha!
Tem axé, tem frevo, tem samba,
Tem até maracatu, mexe o corpo, vem rebolar,
Larga o pudim e o sagu!
Carnaval é só alegria, faz sorrir até
Um velho ranzinza, pena que a nossa festa
Acaba na quarta-feira de cinzas!

E se eu fosse uma planta?






         E se eu fosse uma planta? Será que todos os meus problemas se resolveriam? Foi isso que passou de súbito em minha cabeça, quando eu passeava de carro no banco do carona. Não era eu quem estava dirigindo, por isso, meus pensamentos eram mirabolantes e fantasiosos! E quando eu olho para fora, eis que me deparo com um canteiro repleto de flores e plantas que tentavam disfarçar a sujeira do concreto. Por um momento, eu queria ser uma daquelas plantas. Não sentiria mais tristeza, nem angústia, nem dor, nem medo de perder alguém, ou até mesmo o meu próprio emprego! Certamente, se eu fosse uma planta, alguém me acolheria, me daria bom dia e me regaria com a água da torneira.